Entrevista: Augusto Paim, tradutor de Johnny Cash – uma biografia

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O lançamento de obras estrangeiras inéditas no Brasil é uma das decisões editoriais mais frequentes da 8INVERSO. O catálogo de títulos publicados é prova disso, e um dos destaques são os livros do selo 8INVERSO Graphics – dedicado às narrativas em quadrinhos.

O gaúcho Augusto Paim, de 25 anos, foi o tradutor da graphic novel que apresentou aos brasileiros o trabalho de um premiado quadrinista alemão, já conhecido na Europa e nos Estados Unidos: Reinhard Kleist, autor de Johnny Cash – uma biografia.

Na entrevista abaixo, o jovem jornalista, tradutor e escritor porto-alegrense fala sobre tradução literária, a arte das narrativas em HQ e o trabalho de Reinhard Kleist. Confira!

 

De quem partiu a iniciativa de traduzir Johnny Cash – uma biografia? Já conhecias o trabalho do autor, o alemão Reinhard Kleist?
Entre 2008 e 2009, morei na Alemanha por oito meses; foi onde tive contato com a maioria das obras de quadrinhos que tenho me esforçado para trazer para o Brasil, como Johnny Cash – uma biografia, do Reinhard Kleist. Em Berlim, visitei o ateliê de um outro quadrinista que eu admiro, o Mawil, que, na época, dividia o espaço com mais três quadrinistas, entre eles o Kleist. De volta ao Brasil, em 2009, o Robertson Frizero, que foi meu colega na oficina de criação literária do Luiz Antonio de Assis Brasil, me pediu sugestões de projetos para a editora da qual ele recém virara sócio, a 8INVERSO. Eu sugeri a tradução da graphic novel sobre Johnny Cash. Aí ocorreu uma coincidência que ajudou bastante nessa decisão: eu já estava organizando um evento com o Goethe-Institut Porto Alegre que traria o Kleist para o Brasil no final do mesmo ano. A editora aprovou a ideia, e então corremos para fazer a tradução a tempo de lançar o livro com a presença do autor. Eu me sinto orgulhoso por ter trazido a obra do Kleist para o Brasil, mas também sei que isso só ocorreu porque houve uma editora com visão suficiente para topar a empreitada e ver aí uma grande oportunidade. Ainda hoje há vários autores alemães consagrados esperando por tradução. Não é toda editora que tem esse tino para negócio.

Ao teu ver, uma graphic novel biográfica, como é o caso de Johnny Cash – uma biografia, aproxima-se mais da literatura ou do jornalismo?
Eu diria: aproxima-se mais do Jornalismo Literário. A reportagem feita em profundidade tem muita semelhança com as melhores obras literárias, porque acaba não apenas informando, mas também transformando. O Jornalismo Literário bem feito também tem esse poder. Claro que aí há uma discussão sobre uma possível fronteira entre ficção e não-ficção, o que é bem questionável até certo ponto. A respeito disso, gosto muito de citar o que um personagem diz na página 94 de Cash: “De vez em quando você tem de ler apenas nas entrelinhas. Então você tem as verdadeiras histórias. No fim, são as histórias que permanecem, não os fatos. E histórias precisam ser contadas.”

 

 

 

 

A edição original do livro foi publicada na Alemanha em 2006, próximo ao lançamento do filme americano “Johnny & June”, também sobre a vida de Johnny Cash. Que diferenças existem entre as histórias apresentadas nas duas obras?
A proximidade do lançamento das obras foi uma coincidência; o Kleist não sabia que o filme estava em produção. Na minha visão, a versão cinematográfica da vida de Johnny Cash é mais romanceada, centrada na relação dele com a June. É uma história de amor, praticamente. Já o quadrinho de Kleist tem uma atmosfera mais sombria, com bastante enfoque para o efeito das drogas na vida do cantor. Acho que por isso o trabalho do Kleist corresponde melhor ao que foi a vida de Johnny Cash. Se você acompanha a trajetória completa da vida do cantor — incluindo aí a relação com a June, a carreira musical, sua infância e o uso das drogas —, você compreende muito melhor o clipe “Hurt”, que é praticamente um apanhado de tudo o que a vida dele significou.

Existem limitações narrativas impostas pelo gênero graphic novel ou qualquer história pode ser transposta e adaptada aos quadrinhos?
Se formos pensar que o quadrinho é uma mídia visual, pareceria loucura contar assim a trajetória de um músico. Por isso o trabalho do Kleist merece tantos elogios. Por outro lado, acredito que há algumas histórias mais apropriadas para a linguagem dos quadrinhos. Trabalho com Jornalismo em Quadrinhos e tenho pesquisado bastante sobre que vantagens há em se fazer uma reportagem usando essa linguagem. No meu ver, o quadrinho é muito bom para histórias com bastante apelo visual e que exigem reconstituição de cenas e construção de atmosferas. Nesse sentido, a sarjeta (o espaço entre um quadro e outro) pode ser um recurso excelente para tornar o leitor o responsável pela criação do clima da história, para jogar o leitor dentro da história.

 

 

Que sugestões darias a jovens estudantes interessados no trabalho de tradução literária?
O importante da tradução é dominar a língua de chegada — o português, no nosso caso. Já com a língua de partida é necessário ter uma relação longa e profunda, claro, mas dificilmente se conseguirá dominá-la. É aí que vêm em nosso auxílio os dicionários e outras fontes.

Como fazer para acompanhar o teu trabalho ou entrar em contato?
Tenho um site, onde está publicado meu portfólio: augustopaim.com.br. Ali é possível acessar meu perfil no Facebook e no Twitter (@augustoteles). Também tenho dois blogues: o cabruuum.blogspot.com, onde desde 2005 escrevo sobre quadrinhos, e augustfest.blogspot.com, que começou como um espaço para relatar as minhas experiências de intercambista e onde hoje divulgo meus mais recentes trabalhos, bem como publico textos literários.

 

Johnny Cash – uma biografia

Autor: Reinhard Kleist

Tradução: Augusto Paim

ISBN: 978-85-62696-01-5

 

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