Entrevista: Felipe Abal, tradutor de Fuga de Sobibor

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Centenas de filmes e livros sobre os horrores da Segunda Guerra Mundial já foram lançados nas últimas décadas. Todos os enfoques sobre os envolvidos no conflito já foram abordados: os nazistas opressores, as populações oprimidas, os exércitos aliados e os soldados que lutaram contra ou a favor do III Reich. Porém, há um capítulo dessa história ainda pouco conhecido pelo público brasileiro: os eventos que se sucederam no campo de extermínio de Sobibor, na Polônia.

Em agosto de 2011, a 8INVERSO lança Fuga de Sobibor, de Richard Rashke: um impressionante relato do maior levante de judeus em um campo de extermínio durante a Segunda Guerra Mundial em Sobibor, na Polônia, já adaptado para um telefilme nos anos 80. O autor partiu de pesquisas e entrevistas com sobreviventes para narrar esta que foi a única grande revolta bem-sucedida de prisioneiros de um campo de extermínio.

Felipe Abal, um gaúcho de Passo Fundo de 29 anos, é o tradutor da obra que chega pela primeira vez ao Brasil. Na entrevista abaixo, o professor de Direito da Universidade de Passo Fundo fala sobre a história de Fuga de Sobibor, seu interesse pelo acontecimento e a recepção da editora à proposta de publicação de um livro cuja tradução foi uma iniciativa pessoal. Confira!

Fale-nos da história apresentada em Fuga de Sobibor.
Geralmente, as pessoas têm seu principal contato com a Segunda Guerra Mundial e o holocausto através de filmes. Na maior parte desses filmes, os judeus são retratados de forma extremamente passiva, como se não tivessem oferecido nenhuma resistência às agressões nazistas. Fuga de Sobibor, por sua vez, trata da luta dos judeus durante o holocausto, da luta pela vida e pela sobrevivência. Interessante ressaltar que Sobibor, ao contrário de outros campos, como Auschwitz, não era um campo de concentração, mas sim, um campo de extermínio. Existe uma diferença muito grande aí: os judeus não chegavam em Sobibor para trabalhar, para serem utilizados como mão de obra escrava; apenas para morrer. Somente uma pequena quantidade de prisioneiros era selecionada para trabalhar, enquanto todos os demais iam diretamente para as câmaras de gás, diferentemente do que ocorria nos campos de concentração. Diante disso, já se pode imaginar que a história contada no livro, feita de forma magistral por Richard Rashke, que se utilizou de documentos e testemunhos dos poucos sobreviventes para escrevê-la, é muito tensa e repleta de horrores inimagináveis. Além disso, o livro possui uma característica ímpar: ele também discorre a respeito da inércia dos países aliados frente ao extermínio dos judeus. Hoje, a imagem que nós temos é a de que os americanos e demais aliados lutaram bravamente contra o holocausto, quando, na verdade, em diversos momentos, eles assistiram de braços cruzados ao assassinato de milhares de judeus.

Você propôs para a 8INVERSO a edição e publicação de Fuga de Sobibor — obra que já tinhas traduzido por iniciativa própria. Por que o interesse pessoal em publicar este livro?
Meu interesse veio do desejo de expôr para o público brasileiro os fatos diferenciados colocados no livro. Em primeiro lugar, que existiam campos de extermínio onde os prisioneiros não tinham quase nenhuma chance de sobreviver. Em segundo lugar, que os judeus não foram para as câmaras de gás como cordeiros para o matadouro; a resistência existiu, seja através de palavras e atos ou pela resistência armada dos partisans. Por fim, para que viesse ao conhecimento de mais pessoas a frieza com que os aliados trataram em muitos momentos a questão do holocausto, ora não acreditando que fosse verídica, ora se abstendo de agir contra o genocídio.

 

 

Como você conheceu o livro que deu origem a Fuga de Sobibor, Escape from Sobibor?
Como estou escrevendo minha dissertação de mestrado a respeito de dois ex-membros da SS (a polícia nazista) que foram comandantes dos campos de extermínio de Sobibor e Treblinka, tive contato com um grande número de livros estrangeiros a respeito do assunto, entre eles, Escape from Sobibor. Por isso, entrei em contato, através do Museu do Holocausto de Nova Iorque, com uma sobrevivente de Sobibor. Foi uma grata surpresa quando recebi uma resposta não dela, mas de Richard Rashke, o autor de Escape from Sobibor, dizendo que o estado de saúde da sobrevivente não permitia que ela respondesse às minhas perguntas, mas que eu poderia consultar o seu livro. Desde então começamos a trocar e-mails e foi quando eu o questionei sobre o motivo do seu livro nunca ter sido publicado em português, ao que Richard me disse que, apesar do seu interesse, nunca tinha sido procurado por uma editora brasileira. Comprometi-me com ele a traduzir o livro e procurar uma editora, chegando, então, à 8INVERSO. Até hoje estou em contato com Richard Rashke, quem considero, mesmo à distância, um grande mentor para a pesquisa que realizo.

Qual foi o maior desafio na tradução de Escape from Sobibor?
A tradução como um todo se tornou um desafio, pois, passado algum tempo, senti uma grande empatia pelas pessoas retratadas no livro. Foi impossível não sentir uma profunda tristeza pelo acontecido em Sobibor, quase como se as agressões fossem cometidas contra um conhecido ou amigo. Lembro de uma ocasião em que tive que entrar em contato com o autor e dizer a ele: “Richard, está muito pesado realizar este trabalho. É muito gratificante, mas exige muito emocionalmente”; ao que ele me respondeu: “ninguém sabe o quanto sofremos quando trabalhamos em livros como Sobibor. Aconteceu comigo, aconteceu com você e com o tradutor da versão em russo, aconteceu com o escritor da versão para o filme. No final, nós todos fazemos uma grande contribuição e crescemos”.

Como foi a aproximação com a 8INVERSO para buscar a publicação?
A editora foi, desde o primeiro contato, extremamente solícita. Impressionei-me com a abertura para que dialogássemos e pelo trabalho que pudemos realizar em conjunto. Se tivesse que resumir minha visão sobre a Editora 8INVERSO em duas palavras, seriam ousadia e competência.

Deve ser empolgante testemunhar a edição de uma obra a qual você mesmo traduziu e propôs publicação.
É extremamente gratificante! Mesmo tendo apenas traduzido a obra, sinto que estou fazendo a minha parte em manter viva a lembrança do holocausto. Fuga de Sobibor é apenas um pequeno recorte em um período histórico extremamente conturbado e triste. Creio que o mais importante a respeito de qualquer relato sobre o holocausto é lembrar dos terríveis efeitos da guerra, dos horrores do genocídio, dos milhões de pessoas que perderam suas vidas. Lembrar é sempre a melhor forma de impedirmos que os mesmos erros sejam cometidos novamente.

 

Fuga de Sobibor
Autor: Richard Rashke
Tradução: Felipe Abal
ISBN: 978-85-6269-612-1

 

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7 Comentários

  1. Tive o prazer de ler esta tradução em primeira mão e parabenizo Abal pela competência, paixão e entusiasmo, os quais ficam claríssimos nesta ótima entrevista.

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  2. O livro é mais do que uma história bem contada; é um documento decisivo para compreender os meandros do holocausto. O trabalho do Felipe Abal, enquanto tradutor e pesquisador incansável, concede a obra a sua dimensão de leitura obrigatória para todos aqueles que se interessam pela luta pela liberdade.

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  3. e, uma historia que nunca vai ter fim. eu nao sabia que os americanos ficaram de braços cruzados so vendo os judeus morrerem.

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  4. bem eu não li o livro mais asisti o filme, o que é horripilante, sabe acho que ele não mostra em nada o que aquelas pessoas sofreram por lá mais é um vislumbre do que aquelas pessoas passaram neste campo do inferno.
    encontrei a algum tempo em uma loja esta em promoção o DVD de a fuga de sobibor ja que sou louco por estas Histórias de guerra, não tive duvidas comprei o DVD que por sorte é muito bom.

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  5. Um dos melhores livros que já li.

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  6. Grande Felipe Abal! Parabéns pelo seu trabalho. Tive o prazer de ser seu aluno e o teu entusiasmo e inteligência sempre me surpreenderam.

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    • Caro amigo, muito obrigado pelas palavras! Espero que tenha gostado do livro. Forte abraço!

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