Crônica: Entre a palavra e o silêncio, por Caio Riter

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Diz o ditado popular (e eu acredito na sabedoria de muitos deles) que a fruta não pode cair muito longe do pé. E eu, cada vez que me vejo bipartido: um tanto de desejo de palavra, outro tanto de silêncio, lembro do pé (ou melhor, dos pés) que me fizeram ser quem sou, este cara que oscila entre o desejo de emudecimento e a efusão da palavra.

Não sei qual deles, o desejo ou a efusão, é mais presente em mim. Ora um me domina, ora o outro me escraviza. Amo as palavras, trabalho com as palavras, me entrego a elas, como um servo à sua dona. Todavia, gosto do silêncio, gosto dos espaços em branco que existem (e que pulsam) nos intervalos dos ditos. Eles também falam, talvez falem mais que as palavras, mas, em sua essência são silêncios, são branco, branco, pleno branco em sua ausência de grafismo, em sua possibilidade de nada dizer.

Há momentos em que me permito isso: apenas ser. Ser sem a necessidade do dito, do escrito, da palavra. No fazer-se quietude, deixo-me apartado das palavras, apartado de qualquer entendimento que careça delas. O silêncio invade a alma, o silêncio aquieta o tudo, o silêncio é a mãe do que está por se gestado. O silêncio é grávido. Sempre.

Contudo, há instantes em que me permito apenas rechear-me de ditos, de textos, de expressões minhas e não minhas também. Aí, vou-me sendo e sendo outros, vou querendo que a palavra dê conta do que ainda não se tornou consciência e me torno eu também um engenheiro do verbo, na busca daquele que sustente o meu arranha-céu interior.

Minhas palavras e meu silêncio são sempre formas de ir ao encontro de mim. E do outro.

E quando me pego a pensar sobre estas duas metades minhas, trago para o hoje memórias do vivido. E vejo minha mãe a contar histórias, a brincar com as palavras, a propor enigmas, a entoar versos populares, quadrinhas, a assustar-me através da narração de lendas povoadas de seres do além, que até hoje são encantamentos. E vejo meu pai, homem todo feito de quietude. Olhos claros a fitar o quê? Boca de poucos conselhos, de poucas histórias, uma ou outra a nos apresentar, através de recortes acronológicos, o jovem, a criança, o homem que foi no antes de mim.

Sou fruta próxima ao pé. Sou palavra de mãe, sou silêncio de pai. E o verbo, e a não-palavra, sei, hoje, nada são mais do que comunhão.

***

Caio Riter é escritor e professor e, desde 1994, tem publicado regularmente livros para crianças e jovens. Pela 8INVERSO, lançou a elogiada coletânea de contos adultos Vento sobre terra vermelha.

4 Comentários

  1. Parabéns!! Excelente crônica!
    Bah, me sinto bem assim também!! Como é boa a companhia de amigos, a troca de palavras, o silêncio ao ouví-los, ou estar distante mesmo próximo. Mas também é esplêndido o silêncio na rede com aquela brisa e o sublime descansar…

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  2. Amei sou crônica. Você realmente escreve muito bem. Tenho muita vontade de ler um livro seu que foi premiado no concurso Barco a Vapor. Se quiser, podemos trocar livros: eu lhe mando um exemplar do Viagem Inesquecível e você me manda um exemplar do seu. O meu também ficou lindo, a ilustração da Thaís Linhares é um luxo. Abraços!

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  3. Nooooosssa adorei a crônica. Que descrição maravilhosa de um ser .Que comparação ou tradução do ser formado hoje. Muito lindo. Excelente escritor.Adoro. abraços.

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  4. Dispensa quaisquer comentários.
    Excelente, Caio Riter! Quero ler mais… muito mais!
    Abraços!

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